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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, Haruki Murakami

Autor: Haruki Murakami
Tradutor: Eunice Suenaga
Edição: Rio de Janeiro: Objetiva, 2014

Haruki Murakami é autor contemporâneo japonês de bastante destaque no cenário internacional. Suas obras possuem bastante alcance, recebendo traduções em diversos idiomas e adaptações para o cinema. Seu estilo possui clara influência ocidental, em especial da literatura e música norte-americana, o que o torna mais acessível fora da Ásia. No Brasil, vários de seus títulos foram publicados pela Alfaguara e possuem considerável público. 
Isso se deve, em parte, às narrativas centradas na ação que Murakami constrói. Sua obra consegue entreter seu leitor com um ritmo acelerado, mas  sem ser demasiadamente superficial. O autor recorre muitas vezes à inserção de uma aura misteriosa em que o mundo físico e um outro mundo mágico – como o subterrâneo de 1Q84 – coexistem, construindo uma atmosfera intrigante. Também recorre frequentemente, como em Norwegian Wood, a outro mundo não visível: a investigação psicológica de personagens reféns de si mesmos. O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação pertence a essa segunda categoria.
Tsukuru Tazaki é o protagonista desta. Engenheiro, Tsukuru trabalha em uma companhia férrea construindo estações de trem, uma paixão de sua adolescência. É saudável, possui boa educação e situação financeira e, como diria Jane Austen, “deve estar procurando uma esposa”. Sara, uma mulher a quem é apresentado por um colega de trabalho, é seu mais novo interesse amoroso. Ela, no entanto, apresenta um obstáculo ao nosso protagonista: demanda que ele invista emocionalmente no relacionamento.
Para isso, Tsukuru precisa voltar ao seu passado e entender o trauma que marcou sua adolescência. Na época do colegial, ele foi parte de um grupo de cinco amigos próximos, cujos nomes coincidentemente eram de cores diferentes – Akamatsu é “pinheiro vermelho”, Ômi é “mar azul” e as meninas Shirane “raiz branca” e Kurono “campo preto”. Somente a ele cabe um nome desligado desse signficado, uma vez que o seu está relacionado com a ideia de construir. Ficou o apelido e a sina de Tsukuru, o incolor. 
A amizade dos cinco é intensa. Juntos, voluntariam-se em uma escola humilde da região. Quando terminam os estudos secundários, Tsukuru é o único que decide abandonar Nagoia por Tóquio. Um ano depois, recebe um telefonema de Azul dizendo para não procurá-los mais.
   Tsukuru é profundamente inseguro e essa rejeição é aceita por ele quase que sem reservas. Mergulha em uma profunda depressão da qual emergirá somente seis meses mais tarde; torna-se um homem mudado. 
É difícil apontar qual a principal falha deste romance: seu protagonista infantil, o péssimo trabalho de seu autor ao abordar a sexualidade de seus personagens ou as pontas soltas mal disfarçadas com um final aberto que pouco acrescenta ao livro. O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação  é uma realização fraca quando comparada com os outros romances do autor.
As personagens aqui simplesmente não convencem, meras promessas de algo que poderia ser melhor desenvolvido. Branca é, talvez, a personagem mais injustiçada. Sabemos que ela é dona de uma sensibilidade excepcional porque é artista e dá aula para crianças (o protagonista que passa a vida inteira remoendo uma única rejeição sem ter coragem de questioná-la  de fato, mas aparentemente não devemos pensar nele como alguém particularmente sensível porque é engenheiro ou qualquer justificativa que o valha). Sara, o interesse amoroso do protagonista, é mero receptáculo para a necessidade de motivação do personagem; a sua é somente um relacionamento estável. Representa, de maneira quase risível, um pólo oposto à estranha paixão adolescente de Tsukuru, que é incapaz de diferenciar as duas amigas – uma solução preguiçosa do autor para o fato de que, exceto por características físicas, pouco diferencia as personagens. 
Há ainda o amigo da Universidade de Tsukuru, Haida – hai é uma palavra tradicional japonesa para a cor cinza – cuja entrada e saída súbita na vida do personagem é constatada por nosso protagonista como algo que também precisa de resolução, mas abandonada no meio do caminho. Sua presença acrescenta ainda uma narrativa myse en abime também sem resolução que aborda frouxamente o tema da peregrinação.
O conceito de peregrinação está no centro do romance, mas nunca é discutido abertamente e poderia ser melhor aproveitado. Tsukuru é expulso de uma sociedade idealizada, unida por motivos altruístas, mas peregrina de fato muito pouco para quem trabalha com estações de trem – uma ironia bem fraca. Duas viagens concluem todo seu drama pessoal, somente uma realmente para longe – e que é abordada superficialmente, uma vez que segue a mesma estrutura dos episódios que tomam lugar em Nagoia e não acrescentam nada que não poderia ter acontecido no próprio Japão e nenhuma epifania particularmente enriquecedora, mas somente dá algumas respostas para o mistério central da narrativa.
Para não dizer que o autor não percebe o material que tem em mãos, temos diversos parágrafos explicando o significado mais profundo do interesse de Tsukuru por estações de trem, uma metáfora tão óbvia que ao ser esmiuçada apenas dilui seu poder.
As falhas de O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação possui são bastante óbvias e fazem com que a obra seja uma das mais fracas de um autor, no geral, capaz de produzir romances de melhor qualidade. É chocante  que Murakami não se envergonhe de permitir que um livro assinado por ele contenha a frase “Ele sentiu no pescoço dele o sorriso tranquilo dela, e seus seios estavam cheios de energia para continuar vivendo”, digna de um rol das piores citações da literatura recente. Resta torcer para que o autor se redima no futuro, retomando o potencial que exibiu em 1Q84. 


Nota: ♥♥

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Eu sou um gato, Natsume Soseki

Título: Eu sou um gato
Autor: Natsume Soseki
Tradutor: Jefferson José Teixeira
Edição: São Paulo: Estação Liberdade, 2008.

            Eu sou um gato é a obra de estreia do modernista Natsume Soseki, professor de inglês por formação que, com o sucesso da publicação em folhetins no ano de 1905 e posteriormente revisada e publicada como livro, engata uma carreira literária prolífica. Escreveu também sobre teoria literária, além de ser um astuto observador da classe intelectual japonesa, alvo principal de sua narrativa de estreia.
            Não há nada de metáforico no título: o narrador da obra é, de fato, um gato sem nome que dá sua superioridade aos seres humanos como um fato óbvio e pouco preocupa-se com fornecer-nos explicações acerca de sua condição de gato escritor. Ao invés disso, durante os onze capítulos que compõe sua obra, delicia-se em descrever, com minúcias, a estupidez dos humanos que encontra – em especial, de seu amo, o preguiçoso Kushami.
            Kushami funciona como uma espécie de alter-ego de Soseki, que tempera sua obra com referências a autores da época com quem tinha amizade e com experiências suas que aparecem transfiguradas na vida do professor Kushami. As notas de rodapé incluídas na edição são essenciais para que a compreensão do jogo feito por Soseki e a edição da Estação Liberdade supre as necessidades do leitor ocidental pouco familiarizado com a Literatura japonesa.
            O livro não deve, no entanto, assustar o leitor por pertencer a uma tradição com que o público brasileiro tem pouca familiaridade. O compromisso com o modernismo garante terreno comum suficiente para que a obra seja desfrutada sem problemas e é fácil para o leitor admirar a prosa elegante e certeira de Soseki, que debocha do discurso intelectual ao colocá-lo como fruto do intelecto de um gato com tendências filosóficas cujo objeto de estudo são experiências prosaicas. A ironia também é recurso constante e bem empregado, uma vez que Kushami e seu círculo de amizades é retratado como patético constantemente pelo narrador felino.
            Kushami é professor de inglês em uma escola para meninos e, apesar de dedicar-se pouco ao seu cargo, ser visto com estranheza por seus colegas e ridicularizado por seus alunos, enxerga-se como um intelectual. Constantemente embarca em tentativas frustradas de produzir arte, seja escrita ou pintura, apenas para alcançar resultados medíocres. É casado, possui três filhas e vive de aluguel em uma casa mal-cuidada. Seu amigo mais próximo é o esteta Meitei. Enquanto Kushami leva a si mesmo a sério, Meitei é o oposto: bonachão e mentiroso, suas histórias são sempre absurdas e exageradas. Há, ainda, Kangetsu, jovem discipulo dos dois que ensaia seguir o mesmo caminho, porém ao invés de dedicar-se às artes, dedica-se ao estudo de questões inúteis da física – que, proclama, é o futuro da intelectualidade. Um dos acontecimentos que amarram a narrativa envolve seu potencial casamento com a filha do próspero comerciante Kaneda, cuja inescrupulosidade típica dos comerciantes irrita profundamente ao inerte professor.
            Outro fio que percorre toda a obra é a reflexão acerca da tensão entre o modo de vida ocidental e oriental, fruto da abertura do Japão durante a era Meiji e também sentida profundamente pelo autor em sua experiência estudando na Inglaterra. A valorização da individualidade como expressão máxima típica da cultura ocidental em muito difere da valorização da comunidade e na busca de um “eu” sem artíficios como refúgio do oriente: em certo ponto, Soseki ilustra a questão afirmando que, frente a uma situação desconfortável, a cultura ocidental manda que busquemos mudá-la, enquanto a oriental manda que mudemos a nós mesmos para que essa situação deixe de nos incomodar.
            Há, no entanto, qualquer ranço de resistência que é simples fruto da diferença geracional que o próprio autor parece ter consciência especialmente fácil de perceber no tratamento das personagens femininos. A elas fica delegado o mundo das decisões práticas – uma vez que, na cultura japonesa, a economia do lar é responsabilidade das mulheres – e se são vistas com certo desprezo, retornam o favor na mesma moeda. Enquanto os personagens insinuam uma culpa ocidental para as mudanças de temperamento e maior liberdade das mulheres, a total inoperância masculina exposta no romance sugere uma necessidade de ordem muito mais próxima, até porque os conhecimentos das mulheres acerca da cultura ocidental é limitado pela educação recebida nas escolas femininas.
            O ritmo da obra só é prejudicado por, em alguns momentos, estender-se demais em digressões do narradoe. Estas, no geral, funcionam melhor quando inseridas em um contexto de ação e observação direta. O trabalho de tradução, revisão e pesquisa feitos pela Estação Liberdade é louvável e garante que a leitura flua até mesmo para quem tem pouca familiaridade com a cultura japonesa. Eu sou um gato é um romance interessante, que experimenta, mas também que preocupa-se em manter uma prosa instigante em seu olhar curioso acerca das trivialidades que fazem a vida cotidiana, transformando-a numa expressão interessante do modernismo japonês.

Nota:  ❤❤❤❤

quarta-feira, 13 de julho de 2016

A vegetariana, Han Kang

Título: A vegetariana
Autora: Han Kang
Tradução: Yun Jung Im
Edição: São Paulo: Devir, 2013.

            Han Kang é uma escritora sul-coreana bastante premiada em seu país natal e com uma considerável lista de obras publicados. A vegetariana, em seu formato romance-novelas, é o título responsável por, finalmente, chamar atenção do público ocidental, rendendo-lhe inclusive um Man Booker International Prize este ano. A autora representa uma geração de escritores coreanos menos preocupados com as chamadas “questões nacionais” fortemente presentes no país de independência consideravelmente recente, mas história antiga. No entanto, é ainda marcada pela inescapável reflexão que muito progresso em pouco tempo ocasiona, só que pelo viés do cotidiano e das pressões sociais, provavelmente o motivo pelo qual torna-se também mais acessível ao público estrangeiro.
            A vegetariana demonstra magistralmente em suas três novelas como pequenas rebeliões podem impulsionar a completa ostracização do indíviduo que perturba, ainda que minimamente, a ordem e leva o descompasso entre o indivíduo e a vida em grupo até as últimas consequências.
            O livro divide-se em três novelas que funcionam independentemente, mas também estão interligadas e estabelecem certa sequência de eventos – que é afrouxada pelas informações sobre o passado das personagens espalhadas ao longo das três de forma bastante inteligente. A personagem central aqui é Yeong-hye e seu núcleo familiar e cada novela possui um narrador diferente dentro desse círculo.
            A primeira novela leva o mesmo nome que o livro e é narrada pelo marido de Yeong-hye. Ele apresenta-nos sua esposa (a quem jamais refere-se pelo nome) como uma mulher comum, sem uma beleza ou inteligência excepcional e que jamais despertou-lhe emoções intensas. Pelo contrário, vê nessa banalidade do relacionamento dos dois sua maior qualidade: a mulher é alguém que limpa a casa, faz sua comida e com quem pode manter relações sexuais sem ter que pensar muito sobre essas coisas. A única reclamação que tem é o hábito da esposa de não usar sutiã.
            Um dia, sua esposa decide parar de comer carne após ter um sonho – e as descrições desse sonho são um dos únicos vislumbres que temos da sua interioridade – e parar de prepará-la também. Em um primeiro momento, ele acredita ser algo passageiro, mas conforme sua esposa mantém firme a resolução, o casamento dos dois começa a desmoronar. O conflito culmina em um almoço em família, em que os pais de Yeong-hye tentam intervir, mas acabam levando-a a uma tentativa de suicídio e subsequente internação.
            A segunda novela chama-se “A mancha mongólica” e é narrada pelo cunhado de Yeong-hye, um artista audiovisual que vive efetivamente sustentado pela esposa, com quem tem um filho pequeno.  Ele é quem leva a desacordada Yeong-hye ao hospital e começa a nutir uma obsessão por ela ao descobrir que, assim como seu filho, ela possui uma mancha mongólica esverdeada, mas na nádega. Essa mancha desencadeia uma visão artística cuja força o impele a arriscar seu casamento para vê-la concretizada em um controverso trabalho.
            Por fim, “Árvores-flamas” traz a visão da irmã mais velha de Yeong-hye, sua sensação de culpa por ter superado as dificuldades da infância e por ter falhado em proteger a irmã dos homens em sua vida – o pai, o marido de Yeong-hye e o seu próprio marido. A proximidade que o laço entre as duas cria faz com que ela seja a única a perceber a fragilidade da irmã e também com que, ao acompanhar sua loucura, sinta intensamente quão próxima está de perder-se - seu filho é a âncora que a prende ainda na realidade, um tipo de relação que Yeong-hye desconhece.
            Yeong-hye não torna-se simplesmente vegetariana como uma decisão política e consciente, mas sim cai irresistivelmente em um processo de lenta metamorfose kafkiana, deixando o mundo dos seres vivos para, dolorosamente, fazer parte do mundo vegetal. A prosa belíssima de Han Kang adapta-se aos seus narradores de maneira brilhante -  a aridez da primeira novela, contaminada pela total falta de sensibilidade e imaginação de seu narrador, a idealização exagerada da figura de Yeong-hye na segunda, dessa vez contamidade pelo excesso de sensiblidade e imaginação de quem narra e, por fim, o relato amoroso e sofrido da irmã e mulher na terceira juntam-se para humanizar a protagonista do romance e fazer-nos sentir a agonia da sua impossibilidade de comunicação – ela é uma figura que em mãos menos talentosas poderia ser caricata, mas que aqui é uma vítima dos papéis que lhe são impostos, cujo sofrimento pungente comove na sua recusa de exercer qualquer tipo de papel predatório. A tradução dá conta do recado, trazendo informações importantes sobre alguns pronomes de tratamento e até mesmo culinária da Coréia, porém a diagramação e tratamento do texto deixam a desejar. De qualquer forma, A vegetariana é uma obra marcante, belíssima e que merece o reconhecimeto que tem angariado recentemente.

Nota:  ❤❤❤❤❤