A Mary, amiga de longa data que vocês podem encontrar falando sobre cinema aqui, escreveu e dirigiu seu primeiro curta, chamado Teodora. Disponibilizo aqui para que vocês possam assisti-lo e aproveito para parabenizá-la pelo excelente trabalho!
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Fascismo Eterno, Umberto Eco [tradução] [proibida a reprodução]
Este texto faz parte de um projeto pessoal que pretendo disponibilizar aqui ao longo deste ano. A ideia é, essencialmente, escolher um texto que tenha sido publicado recentemente em veículos que discutem Literatura como o New York Review of Books e o Paris Review e postar suas traduções. Espero conseguir manter certa periodicidade.
Texto publicado no The
New York Review of Books, originalmente publicado em 22 de junho de 1995.
Tradução sem fins lucrativos.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, Haruki Murakami
Autor: Haruki Murakami
Tradutor: Eunice Suenaga
Edição: Rio de Janeiro: Objetiva, 2014
Haruki Murakami é autor contemporâneo japonês de bastante destaque no cenário internacional. Suas obras possuem bastante alcance, recebendo traduções em diversos idiomas e adaptações para o cinema. Seu estilo possui clara influência ocidental, em especial da literatura e música norte-americana, o que o torna mais acessível fora da Ásia. No Brasil, vários de seus títulos foram publicados pela Alfaguara e possuem considerável público.
Isso se deve, em parte, às narrativas centradas na ação que Murakami constrói. Sua obra consegue entreter seu leitor com um ritmo acelerado, mas sem ser demasiadamente superficial. O autor recorre muitas vezes à inserção de uma aura misteriosa em que o mundo físico e um outro mundo mágico – como o subterrâneo de 1Q84 – coexistem, construindo uma atmosfera intrigante. Também recorre frequentemente, como em Norwegian Wood, a outro mundo não visível: a investigação psicológica de personagens reféns de si mesmos. O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação pertence a essa segunda categoria.
Tsukuru Tazaki é o protagonista desta. Engenheiro, Tsukuru trabalha em uma companhia férrea construindo estações de trem, uma paixão de sua adolescência. É saudável, possui boa educação e situação financeira e, como diria Jane Austen, “deve estar procurando uma esposa”. Sara, uma mulher a quem é apresentado por um colega de trabalho, é seu mais novo interesse amoroso. Ela, no entanto, apresenta um obstáculo ao nosso protagonista: demanda que ele invista emocionalmente no relacionamento.
Para isso, Tsukuru precisa voltar ao seu passado e entender o trauma que marcou sua adolescência. Na época do colegial, ele foi parte de um grupo de cinco amigos próximos, cujos nomes coincidentemente eram de cores diferentes – Akamatsu é “pinheiro vermelho”, Ômi é “mar azul” e as meninas Shirane “raiz branca” e Kurono “campo preto”. Somente a ele cabe um nome desligado desse signficado, uma vez que o seu está relacionado com a ideia de construir. Ficou o apelido e a sina de Tsukuru, o incolor.
A amizade dos cinco é intensa. Juntos, voluntariam-se em uma escola humilde da região. Quando terminam os estudos secundários, Tsukuru é o único que decide abandonar Nagoia por Tóquio. Um ano depois, recebe um telefonema de Azul dizendo para não procurá-los mais.
Tsukuru é profundamente inseguro e essa rejeição é aceita por ele quase que sem reservas. Mergulha em uma profunda depressão da qual emergirá somente seis meses mais tarde; torna-se um homem mudado.
Tsukuru é profundamente inseguro e essa rejeição é aceita por ele quase que sem reservas. Mergulha em uma profunda depressão da qual emergirá somente seis meses mais tarde; torna-se um homem mudado.
É difícil apontar qual a principal falha deste romance: seu protagonista infantil, o péssimo trabalho de seu autor ao abordar a sexualidade de seus personagens ou as pontas soltas mal disfarçadas com um final aberto que pouco acrescenta ao livro. O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação é uma realização fraca quando comparada com os outros romances do autor.
As personagens aqui simplesmente não convencem, meras promessas de algo que poderia ser melhor desenvolvido. Branca é, talvez, a personagem mais injustiçada. Sabemos que ela é dona de uma sensibilidade excepcional porque é artista e dá aula para crianças (o protagonista que passa a vida inteira remoendo uma única rejeição sem ter coragem de questioná-la de fato, mas aparentemente não devemos pensar nele como alguém particularmente sensível porque é engenheiro ou qualquer justificativa que o valha). Sara, o interesse amoroso do protagonista, é mero receptáculo para a necessidade de motivação do personagem; a sua é somente um relacionamento estável. Representa, de maneira quase risível, um pólo oposto à estranha paixão adolescente de Tsukuru, que é incapaz de diferenciar as duas amigas – uma solução preguiçosa do autor para o fato de que, exceto por características físicas, pouco diferencia as personagens.
Há ainda o amigo da Universidade de Tsukuru, Haida – hai é uma palavra tradicional japonesa para a cor cinza – cuja entrada e saída súbita na vida do personagem é constatada por nosso protagonista como algo que também precisa de resolução, mas abandonada no meio do caminho. Sua presença acrescenta ainda uma narrativa myse en abime também sem resolução que aborda frouxamente o tema da peregrinação.
O conceito de peregrinação está no centro do romance, mas nunca é discutido abertamente e poderia ser melhor aproveitado. Tsukuru é expulso de uma sociedade idealizada, unida por motivos altruístas, mas peregrina de fato muito pouco para quem trabalha com estações de trem – uma ironia bem fraca. Duas viagens concluem todo seu drama pessoal, somente uma realmente para longe – e que é abordada superficialmente, uma vez que segue a mesma estrutura dos episódios que tomam lugar em Nagoia e não acrescentam nada que não poderia ter acontecido no próprio Japão e nenhuma epifania particularmente enriquecedora, mas somente dá algumas respostas para o mistério central da narrativa.
Para não dizer que o autor não percebe o material que tem em mãos, temos diversos parágrafos explicando o significado mais profundo do interesse de Tsukuru por estações de trem, uma metáfora tão óbvia que ao ser esmiuçada apenas dilui seu poder.
As falhas de O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação possui são bastante óbvias e fazem com que a obra seja uma das mais fracas de um autor, no geral, capaz de produzir romances de melhor qualidade. É chocante que Murakami não se envergonhe de permitir que um livro assinado por ele contenha a frase “Ele sentiu no pescoço dele o sorriso tranquilo dela, e seus seios estavam cheios de energia para continuar vivendo”, digna de um rol das piores citações da literatura recente. Resta torcer para que o autor se redima no futuro, retomando o potencial que exibiu em 1Q84.
Nota: ♥♥
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Dois Irmãos, Milton Hatoum
Dois Irmãos, Milton Hatoum
Título: Dois Irmãos
Autor: Milton Hatoum
Edição: Companhia das Letras, 2007.
Título: Dois Irmãos
Autor: Milton Hatoum
Edição: Companhia das Letras, 2007.
Milton Hatoum é autor brasileiro contemporâneo de impressionante carreira. Manaura de família de origem libanesa, seus romances Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte todos foram premiados com o Jabuti de melhor romance. O potencial de Dois Irmãos em outras mídias, que é seu romance mais popular, têm sido bastante explorado recentemente. Em 2015, a obra foi adaptada em HQ por dois dos principais nomes brasileiros na área, Fábio Moon e Gabriel Bá, e em 2017 ganhou adaptação no formato minisérie para a rede Globo de televisão.
O enredo acompanha a vida dos gêmeos Omar e Yaqub. De família síria, os meninos crescem adorados pela mãe e irmã mais velha e ressentidos pelo pai, que nunca desejou intrusos no seu intenso idílio amoroso com a esposa. Nosso narrador mantém sua própria identidade em suspensa no ar a maior parte do romance – através das narrativas familiares que reorganiza para o leitor define, também, a si mesmo.
A ideia de irmãos gêmeos possui um forte poder evocativo no imaginário coletivo ocidental por estar associada a outra ideia, muitas vezes fonte de horror, também explorada pela Literatura: o duplo. Inúmeras narrativas apoiam-se na imagem de personagens cujo destino está inevitavelmente ligado ao outro. Esse "outro" pode ser tanto complementar quanto o seu reverso, mas raramente é fonte de uma relação saudável. A sentença de um duplo “para vida”, que é a condição a qual os gêmeos são relegados por laços sanguíneos, reforça o ar trágico do qual Hatoum faz proveito ao narrar o fim da linhagem produzida por Zana e Halim.
Omar e Yaqub serem duas faces da mesma moeda não significa, no entanto, que um é bom e outro mau. Está nessa compreensão uma das chaves do romance, que explicam também o plano metafórico que Hatoum constrói. Ambos possuem falhas e elas são reflexos umas das outras. Em suas tentativas de diferenciar-se, tornam-se um completo.
O romance começa com Yaqub retornando da Síria após uma longa temporada em uma pequena aldeia, sem linguagem adequada para expressar-se nem conhecimento das regras de etiqueta. Omar reina absoluto na casa e nas afeições da mãe. Instala-se o conflito: as diferentes formas como os irmãos encaram o fracasso e a rejeição, a impossibilidade de entendimento entre ambos, cujos temperamentos parecem fazer tudo possível para negar as semelhanças físicas. E assim segue o romance inteiro: a vitória de um, intencional ou não, implica na derrota do outro.
Yaqub parte para São Paulo, onde encontra sucesso nos estudos universitários e, mais tarde, em uma carreira de engenheiro. Omar entrega-se à boêmia manauara, mergulhando cada vez mais fundo na vida noturna e nos lugares remotos da cidade. A tensão entre ambos é, também, uma materialização da tensão entre o Norte e o Sul do país: ambos são igualmente dados aos seus impulsos egoístas, apenas os exploram de maneiras diferentes – enquanto Yaqub lhes dá um verniz de sofisticação, Omar deleita-se com o que há de primitivo neles. Ainda neste panorama, temos a personagem Domingas. De origem pobre, fica órfã e é levada para o cuidado das freiras e, mais tarde, da família dos meninos que, apesar de não serem muito mais velhos que ela, exerce um ambíguo papel maternal em suas vidas. Representa outra faceta do Brasil: a que é explorada e relegada ao “quartinho dos fundos”, parte da família somente quando interessa aos que possuem maior poder.
Outro aspecto interessante explorado pelo autor é o núcleo familiar extremamente fechado, a ponto das relações serem todas contaminadas. A expressão máxima disso é, aqui, as inúmeras menções e mesmo a ocorrência direta de incesto. A obsessão de Zana pelos filhos, em especial Omar, e Rânia pelos irmãos é motivo até de alguns comentários, além da clara desconfiança do narrador – e aqui precisamos nos indagar se sua condição dentro do núcleo familiar não o faz particularmente malicioso na interpretação desses afetos. Halim claramente sente ciúmes de Zana. Essa obsessão leva os personagens a fechar-se e, eventualmente, acaba com sua linhagem.
Se o clima novelesco ameaça o romance de Hatoum com as ações dramáticas que recheiam seu romance, a maneira com que o autor captura o uso da língua dá autenticidade ao seu romance, fazendo dele, ao mesmo tempo, uma saga familiar com contornos épicos e um relato desses que é passado de boca a boca. O uso do narrador em primeira pessoa, dá folêgo para o romance nos momentos em que há afrouxamento da tensão entre as personagens – sua condição na família e no romance é a mesma: fonte de uma tensão subjacente, por vezes esquecida.
Dois irmãos consegue, portanto, agradar tanto o leitor mais casual quanto o mais exigente e é um romance interessante de nossa contemporaneidade. A prosa de Hatoum é fluída e sem floreios, mas também é dosada para que o leitor possa entrever possibilidades no que não é dito ou no que somente é insinuado de maneira rica. Suas críticas podem parecer sutis – o autor só abandona qualquer pretexto de sutileza quando trata do período da ditadura militar - mas conseguem ser contundentes sem cair em um tom professoral. Hatoum consegue a difícil tarefa de produzir um romance denso sem ser hermético.
Nota:♥♥♥♥♥
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
Esta valsa é minha, Zelda Fitzgerald
Título:Esta valsa é minha
Autor: Zelda Fitzgerald
Tradução: Rosaura Eichenberg
Edição: São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
Autor: Zelda Fitzgerald
Tradução: Rosaura Eichenberg
Edição: São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
Esta valsa é minha, de Zelda Fitzgerald, é um romance muitas vezes delegado à posição de complemento da obra prima do marido de sua autora, o romance Suave é a noite, de F.Scott Fitzgerald,. Essa relação ecoa também a de Zelda na História da Literatura: foi um dos ícones de sua época junto ao seu marido. Eram dois jovens belos e excêntricos, cuja imagem de excessos inebriantes escondia uma condição financeira instável. Juntos, incorporavam o espírito americano das tumultuosas décadas de 20 e 30. A situação de Esta valsa é minha torna-se ainda mais complicada ao sabermos de seu caráter autobiográfico. Escrito pela autora durante uma de suas internações – sofreu de esquizofrenia – e editado e publicado posteriormente com a ajuda de seu marido, é impossível falar de Zelda seriamente sem dar certo peso às acusações completamente plausíveis de que Scott aproveitava-se de trechos inteiros escritos pela esposa. Se, para o leitor de ambos, parece inegável que há algo compartilhado no estilo dos dois, os protestos conhecidos da autora a respeito do silenciamento que sofria não parecem tão absurdos assim, embora sejam muitas vezes descreditados em favor de seu marido.
Por conta do drama real que envolve o único romance da autora, a obra é constantemente analisada com base nessas hipóteses e tem seu valor questionado e sua estrutura considerada obra do mero acaso. Zelda é definitivamente mais experimental que seu marido, seja lá qual for a motivação para isso, o que torna Esta valsa é minha um romance difícil de adentrar. O ritmo desenfreado com que acompanhamos as memórias de infância de Alabama, personagem central, pula de recordação para recordação tão rápido que desnorteia o leitor. Não se trata, no entanto, de um fluxo de consciência, uma vez que a narrativa acontece predominantemente em terceira pessoa. P trabalho narrativo apresenta rupturas em alguns momentos desconcertantes, seja por uma mudança no foco, que abandona Alabama para descrever os pensamentos de outras personagens muito ocasionalmente, seja pelo uso inesperado de um “nós” que culmina em um interessante diálogo. Hasting, antipático amigo escritor do marido de Alabama, diz ser da opinião de que que não adianta elaborar as relações humanas, ao que Alabama indaga tanto a ele quanto ao leitor: “diga-me, quem é este nós hipotético?”, logo após presentearmos com alguns parágrafos em que a terceira pessoa do plural é usada.
O fio condutor dessa narrativa é o processo de desligamento de Alabama de quem foi um dia e sua total absorção no papel de esposa de David Knights, famoso e consagrado pintor. Das memórias confusas da infância, a corte e o casamento, a mudança para Nova Iorque e, depois para a Europa e, finalmente, sua tentativa de firmar-se como bailarina, o ritmo da narrativa acompanha a vida da narradora. É quando resolve dedicar-se totalmente ao balé, empreitada fadada ao fracasso devido a sua idade avançada para uma principiante, que vemos uma ordenação mais clara dos eventos. Ora, a vida também torna-se mais clara para Alabama, que pela primeira vez impõe-se uma rotina dura, ignorando tudo que seja alheio ao seu objetivo.
Parece leviano, para o leitor mais atento, deixar-se levar pelos julgamentos de caráter de Zelda e ignorar a possibilidade de uma intencionalidade nessa progressão interessante presente em seu romance.
Começamos com uma prosa extremamente desordenada e uma personagem jovem e impulsiva, terminamos com uma narrativa convencional na medida em que Alabama também se vê obrigada a ceder a uma vida convencional. Seu sonho de ser bailarina, uma última tentativa de ser relevante por si só, e seu pai morrem. Alabama volta para o seio familiar, parecendo conformada com sua posição como Mrs Knight.
Não só são modernas suas escolhas artísticas, é também assim seu olhar sobre as relações humanas. Há muitos silêncios no romance: não há cenas de sexo explícitas ou grandes cenas de amor. Intencionais ou não – o livro foi revisado e editado por F. Scott Fitzgerald – essas ausências fazem com que tenhamos acesso a tudo, mas o cerne do romance mantenha-se misterioso: não sabemos ao certo quem é Alabama pois ela também não o sabe. Ao invés de digressões somos presenteados com descrições que nem sempre esclarecem adequadamente as situações.
Isso, porém, prejudica um pouco o livro, dando-lhe um ar de incompleto que realmente prejudica uma obra que apresenta grande potencial no que experimenta. Ao leitor, então, cabe dar o peso adequado ao que acontece, uma vez que o romance lida com os namoricos de Alabama e sua quase amputação do pé da mesma maneira crua e objetiva.
Esta valsa é minha é um romance interessante em suas escolhas, pitoresco em seu retrato da cultura americana e do meio artístico e valoroso em sua honestidade. Independentemente de seu valor terapêutico para a autora ou de tomar para si os mesmos fatos autobiográficos que receberam tratamento tão diferente na obra de F.Scott Fitzgerald, é uma obra de valor independente das relações que possam ser estabelecidas a partir de si.
Nota: ♥♥♥
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
A trégua, Mario Benedetti
Título: A trégua
Autor: Mario Benedetti
Tradutor: Joana Angelica D´Ávila Melo
Edição: Coleção Folha. MEDIAfashion: São Paulo, 2012. 1 ed.
Mario Benedetti, um dos principais nomes da literatura uruguaia, é autor de ficção, poemas e ensaios. O romance A trégua teve sua primeira publicação em 1960 e, em 1974, recebeu adaptação cinematográfica indicada ao oscar de filme estrangeiro. Além de sua força presença como escritor, Benedetti participou ativamente da militância política de seu país, abandonando-o em oposição ao golpe de estado de 1973.
A trégua tem como narrador Martín Santomé, que escreve em seu diário os acontecimentos em seu último ano de serviço antes da aposentadoria. Martín trabalha desde jovem na mesma empresa, onde exerce um cargo puramente burocrático que exige-lhe ao mesmo tempo atenção, mas oferece pouco ou nenhum estimulo intelectual. Sua apatia estende-se também ao trato com a família – é pai de três jovens adultos com quem vive, embora sinta-se distante deles. Sua mulher, Isabel, morreu ainda jovem ao dar a luz para o caçula da família e, desde então, Martín não travou outros relacionamentos românticos.
Martín é, assim como seu emprego, essencialmente banal, embora imagine-se superior por ter consciência disso e certo desprezo pelos que o rodeiam. O que torna A trégua interessante é que, ao colocar-nos como confidentes de Martín, sua falta de senso crítico a respeito de si mesmo fica entre o cômico e o trágico, uma vez que o personagem julga-se bastante cínico e realista. Enquanto Martín julga o que considera “falta de caráter” nos outros, sua relação com seus filhos – em especial, o caçula Jaime – aparecem constantemente para lembrar-nos de suas falhas. É, no que tem de desprezível, extremamente humano na medida em que é incapaz de enxergar a si mesmo com clareza ao mesmo tempo que julga-se capaz de fazê-lo.
Se a angústia causada pelo prospecto de não possuir mais o trabalho mecânico e pouco estimulante como alívio para as tensões familiares mal-resolvidas é o que impulsiona os dias de Martín, uma disrupção à ordem surge na forma da jovem Avellaneda, uma das três funcionárias que o narrador deve treinar antes de aposentar-se. A princípio, sua atitude defensiva indica pouco conforto da jovem moça em sua posição na empresa cheia de homens. Aos poucos, no entanto, seus laços com Martín estreitam-se em um novo relacionamento amoroso que os permite exorcizar seus conflitos internos.
Benedetti constrói um universo pequeno e interconectado ao investir em personagens que espelham uns aos outros. Martín mantém relações com o sensato Aníbal, a quem deseja emular, e o rídiculo Vignale, cujas aventuras amorosas despertam somente desdém por sua falta de medida. Isabel mantém-se detentora do Martín do passado, enquanto Avellaneda e Blanca, sua filha, aproximam-se em seu desejo de compreendê-lo no presente. A revelação da homossexualidade de um dos funcionários da empresa ecoa, mais tarde, na relação de Martín com Jaime. Se Jaime rejeita o pai, Esteban busca sutilmente sua aprovação. As relações (na maior parte das vezes, frias) entre estes personagens enredam os pensamentos do narrador, cujo ídilio amoroso que promete refúgio é, pela segunda vez, interrompido bruscamente.
A prosa de Benedetti é elegante e fluída sem trair seu narrador, um homem sem pretensões eruditas. Suas reflexões honestas são ora pungentes, ora cômicas e tingidas da amargura de quem assistiu sua vida escorrer sem sentir-se, de fato, envolvida nela. Um retrato do Uruguai não é, aqui, um objetivo central, mas ao retratar o homem médio uruguaio Benedetti permite-nos refletir também sobre a inevitável incoerência e hipocrisia humana que impede-nos de enxergar com clareza nossas próprias deficiências.
Nota: ❤❤❤❤
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
Eu sou um gato, Natsume Soseki
Título: Eu sou um gato
Autor: Natsume Soseki
Tradutor: Jefferson José Teixeira
Edição: São Paulo: Estação Liberdade, 2008.
Eu sou um gato é a obra de estreia do
modernista Natsume Soseki, professor de inglês por formação que, com o sucesso
da publicação em folhetins no ano de 1905 e posteriormente revisada e publicada
como livro, engata uma carreira literária prolífica. Escreveu também sobre
teoria literária, além de ser um astuto observador da classe intelectual
japonesa, alvo principal de sua narrativa de estreia.
Não
há nada de metáforico no título: o narrador da obra é, de fato, um gato sem
nome que dá sua superioridade aos seres humanos como um fato óbvio e pouco
preocupa-se com fornecer-nos explicações acerca de sua condição de gato escritor. Ao invés disso, durante os
onze capítulos que compõe sua obra, delicia-se em descrever, com minúcias, a
estupidez dos humanos que encontra – em especial, de seu amo, o preguiçoso
Kushami.
Kushami
funciona como uma espécie de alter-ego de Soseki, que tempera sua obra com
referências a autores da época com quem tinha amizade e com experiências suas
que aparecem transfiguradas na vida do professor Kushami. As notas de rodapé
incluídas na edição são essenciais para que a compreensão do jogo feito por
Soseki e a edição da Estação Liberdade supre as necessidades do leitor
ocidental pouco familiarizado com a Literatura japonesa.
O
livro não deve, no entanto, assustar o leitor por pertencer a uma tradição com
que o público brasileiro tem pouca familiaridade. O compromisso com o
modernismo garante terreno comum suficiente para que a obra seja desfrutada sem
problemas e é fácil para o leitor admirar a prosa elegante e certeira de
Soseki, que debocha do discurso intelectual ao colocá-lo como fruto do
intelecto de um gato com tendências filosóficas cujo objeto de estudo são experiências
prosaicas. A ironia também é recurso constante e bem empregado, uma vez que
Kushami e seu círculo de amizades é retratado como patético constantemente pelo
narrador felino.
Kushami
é professor de inglês em uma escola para meninos e, apesar de dedicar-se pouco
ao seu cargo, ser visto com estranheza por seus colegas e ridicularizado por
seus alunos, enxerga-se como um intelectual. Constantemente embarca em
tentativas frustradas de produzir arte, seja escrita ou pintura, apenas para
alcançar resultados medíocres. É casado, possui três filhas e vive de aluguel
em uma casa mal-cuidada. Seu amigo mais próximo é o esteta Meitei. Enquanto
Kushami leva a si mesmo a sério, Meitei é o oposto: bonachão e mentiroso, suas
histórias são sempre absurdas e exageradas. Há, ainda, Kangetsu, jovem
discipulo dos dois que ensaia seguir o mesmo caminho, porém ao invés de
dedicar-se às artes, dedica-se ao estudo de questões inúteis da física – que,
proclama, é o futuro da intelectualidade. Um dos acontecimentos que amarram a
narrativa envolve seu potencial casamento com a filha do próspero comerciante
Kaneda, cuja inescrupulosidade típica dos comerciantes irrita profundamente ao inerte
professor.
Outro
fio que percorre toda a obra é a reflexão acerca da tensão entre o modo de vida
ocidental e oriental, fruto da abertura do Japão durante a era Meiji e também
sentida profundamente pelo autor em sua experiência estudando na Inglaterra. A
valorização da individualidade como expressão máxima típica da cultura
ocidental em muito difere da valorização da comunidade e na busca de um “eu”
sem artíficios como refúgio do oriente: em certo ponto, Soseki ilustra a
questão afirmando que, frente a uma situação desconfortável, a cultura ocidental
manda que busquemos mudá-la, enquanto a oriental manda que mudemos a nós mesmos
para que essa situação deixe de nos incomodar.
Há,
no entanto, qualquer ranço de resistência que é simples fruto da diferença
geracional que o próprio autor parece ter consciência especialmente fácil de
perceber no tratamento das personagens femininos. A elas fica delegado o mundo
das decisões práticas – uma vez que, na cultura japonesa, a economia do lar é
responsabilidade das mulheres – e se são vistas com certo desprezo, retornam o
favor na mesma moeda. Enquanto os personagens insinuam uma culpa ocidental para
as mudanças de temperamento e maior liberdade das mulheres, a total inoperância
masculina exposta no romance sugere uma necessidade de ordem muito mais
próxima, até porque os conhecimentos das mulheres acerca da cultura ocidental é
limitado pela educação recebida nas escolas femininas.
O
ritmo da obra só é prejudicado por, em alguns momentos, estender-se demais em
digressões do narradoe. Estas, no geral, funcionam melhor quando inseridas em
um contexto de ação e observação direta. O trabalho de tradução, revisão e
pesquisa feitos pela Estação Liberdade é louvável e garante que a leitura flua
até mesmo para quem tem pouca familiaridade com a cultura japonesa. Eu sou um gato é um romance
interessante, que experimenta, mas também que preocupa-se em manter uma prosa
instigante em seu olhar curioso acerca das trivialidades que fazem a vida
cotidiana, transformando-a numa expressão interessante do modernismo japonês.
Nota: ❤❤❤❤
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