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terça-feira, 18 de abril de 2017

Anna Kariênina, Liev Tolstói

Autor: Liev Tolstói
Tradutor: Rubens Figueiredo
Edição: São Paulo: Cosac Naify, 2013.

            Anna Kariênina é um clássico da literatura russa desses que a maioria dos leitores assíduos pelo menos já ouviu falar, seja pelo seu famoso uso de foreshadowing ou pela igualmente famosa frase que abre o romance. A obra, sucessora de Guerra e Paz, foi publicada pela primeira vez como folhetim, entre 1873 e 1877, porém só recebeu o desfecho planejado por Tolstói no ano seguinte, 1878 e conta com oito partes acompanhando, paralelamente, momentos decisivos da vida da personagem que lhe dá o título e de Liévin.
            Para tanto, o romance emprega um narrador onisciente e opera em cima da oposição entre seus dois protagonistas e dos personagens em seus círculos sociais, o que faz com que a diferença do foco narrativo reflita em ritmos e conflitos distintos conforme Anna vai traçando seu destino em direção oposta ao de Liévin. Como os dois personagens gravitam na órbita da mesma roda de alta sociedade, isso faz com que o leitor antecipe o encontro dos dois – momento a partir do qual aceleram seus passos rumo ao seu desfecho inescapável.
            Não há como negar que a figura de Anna é quem, de fato, segura a obra. De beleza extraordinária e criação um tanto resguardada, Anna é casada com Alexei Karenin, um homem bem mais velho cuja vida é dedicada ao serviço público. Com ele tem um filho, Serioja. Se, nos primeiros capítulos, somos apresentados a uma mulher púdica e religiosa, capaz de salvar o casamento levianamente comprometido de seu irmão, o fútil Óblonski, a ida a um baile na cidade e o encontro com conde Vrónski lançam-na em um intenso conflito interno, destruindo suas certezas e impondo-lhe urgência até então desconhecida.
            O que faz de Anna uma personagem fascinante é o tratamento realista que recebe e faz dela personagem complexa. Conseguimos simpatizar com seu desejo de fuga e de experimentar a vida em sua totalidade, sua dor pelas imposições que sofre e a sutil tomada de consciência a respeito de si mesma, talvez seu aspecto mais fascinante. Anna percebe-se não só bela, mas inteligente, capaz de manter conversação e apaixonante. Nada disso era procurado nela por Karenin, que desejava somente uma esposa modesta que exercesse seu papel discretamente. Se essa tomada de consciência torna o casamento uma situação infernal, não serve no entanto de consolo em seu relacionamento com Vrónski. A culpa cristã que Tolstói imbui em sua heroína jamais a abandona totalmente e seu medo de se ver desamparada, sem uma figura masculina que por ela assuma responsabilidade resulta em um comportamento destrutivo e um final trágico.            
            É interessante como Tolstói constrói uma personagem que exemplifica o processo de destruição interna da mulher em uma sociedade que não lhe permite usar seus dons ou agir livremente sem em nenhum momento imaginar que é nessa tremenda pressão que está o problema. O autor ainda apresenta-nos o avesso de Anna na esposa de Liévin, personagem estranhamente deprimente: Kitty é uma jovem limitada em sua beleza e em sua capacidade intelectual, também mantida ao alcance mas nunca próxima de verdade de seu marido. Ao contrário de Anna, dedica-se totalmente à vida em sua faceta mais prática e aos fazeres tradicionalmente femininos, em especial cuidar e velar os outros. Ela é o modelo de esposa cujo desfecho parece indicar o comportamento mais saudável, mas isso acontece às custas de sua complexidade enquanto pessoa ser reduzida à sua habilidade de cuidar e doar-se.
            Liévin, nosso outro protagonista, é amigo muito próximo de Oblónski, apesar de  ter personalidade totalmente diferente da dele. Proprietário de terras, dedica-se ao serviço do campo, cuidando de sua herança e de seus irmãos. Introspectivo e dado a longas reflexões, mas pouco eloquente, é marcado por um desejo de imprimir alguma ordem ao mundo e às relações sociais. Não se sente confortável na alta sociedade, apesar de ser aceito nela. Possui uma relação intensa com seus dois irmãos: um é escritor famoso e o outro perde-se na bebida e ambos são queridos por ele.
            O que aproxima nossos dois protagonistas é um desejo de escapar ao artifício, ao fingimento socialmente imposto. Ambos querem, de alguma forma, alcançar uma forma de vida mais autêntica e livre. Anna acredita que ignorando as regras sociais e vivendo um amor intenso, conseguirá livrar-se do papel ao qual foi condenada por nascimento, sem perceber que começa a exercer um novo no imaginário da sociedade e do leitor: o da escandalosa mulher adúltera. Liévin acredita também na redenção pelo amor, mas o faz como manda o figurino e encontra na constituição de família e, mais tarde, na religião, um conforto que não elimina todas suas dúvidas, mas lhe parece o único compromisso possível. Se a prosa que acompanha Anna é um crescendo de tensão, encerrado por um fim trágico, a que acompanha Liévin mantém ritmo oposto culminando em um desfecho anticlimático.
            O universo de Anna Kariênina é ricamente povoado por diversos outros personagens que nos apresentam reflexões acerca da vida em sociedade, em geral repudiada por sua superficialidade. Há extensas reflexões sobre a identidade russa, em especial no que tange a questão da terra e da relação com os servos (uma das obsessões que Liévin e Tolstói parecem compartilhar) que, se arrastam um pouco a narrativa, apresentam um panorama interessante de um país cuja posição geográfica e a cultura dão-lhe uma posição interessante em relação ao Ocidente.
            A prosa de Tolstói, assim como sua mensagem, foge de artifícios exagerados. O autor investe em um uso eficiente do foco narrativo e do diálogo na construção de personagens marcantes que pintam uma imagem clara da análise feita pelo autor da sociedade russa. Sua preocupação moral não ignora a complexidade da situação, mas as encara como imutáveis e por isso mesmo acaba pecando por ser um tanto forçada e envelhecendo mal – o que é sentido principalmente no último capítulo do livro, em que a narrativa, ao perder o impulso do conflito que a conduziu, afrouxa demais e termina em uma reflexão anticlimática que falha em dialogar de fato com as questões apresentadas ao longo da obra.

Nota: ❤❤❤❤

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Book Haul - Junho '14


     Junho é meu mês favorito do ano e esse ano foi o mês mais descontrolado no quesito aquisição de livros também. Quando parei para contabilizar o estrago decidi ficar pelo menos um mês sem comprar nada e estou quase alcançando a meta (só vou abrir uma pequena exceção pro livro novo do Milan Kundera, mas é só, JURO). E vários dos livros foram presentes porque junho é o mês do meu aniversário :)




 




     Bom, decidi não falar de livro por livro porque acho que ninguém teria paciência, né? Vários são das promoções que a Companhia das Letras e a Editora 34 fizeram esse mês e alguns outros são aproveitando o desconto para aniversariante da Cosac Naify. E uma boa quantidade também são livros que ganhei de presente :) Como vocês podem ver, junho foi um mês excelente para minha estante.

     É isso, pessoal, até mais e boas leituras!

quarta-feira, 26 de março de 2014

O filho de Mil Homens, Valter Hugo Mãe

Título: O filho de Mil Homens
Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Cosac Naify
Edição: São Paulo, 2013.



          Valter Hugo Mãe é um autor angolano radicado em Portugal. Escritor de romances, poesia e também músico, editor e artista plástico, o autor alcançou posição de destaque na literatura portuguesa contemporânea ao receber, junto com o Prêmio Literário José Saramago de 2007, elogios efusivos do escritor português.
            O filho de mil homens narra a história de Crisóstomo, que tem quarenta anos e o desejo cada vez mais urgente de ser pai. Por isso, resolve partir por seu povoado, procurando uma criança que também procure um pai. Encontra Camilo, um jovem órfão que precisa de proteção. Começa, otimista, uma família.
 O desejo de pertencer, de criar laços, une os personagens que são apresentados ao longo do enredo. Ainda fazem parte do universo apresentado pelo narrador Isaura, uma moça que vê sua vida arruinada após ceder às investidas amorosas de seu pretendente; Antonino, rechaçado desde a adolescência pela vizinhança por ser homossexual e que busca na união com Isaura, uma mulher rejeitada, aceitação; Matilde, mãe de Antonino, dividida entre o impulso materno e a pressão social para reprovar seu filho.
Outros personagens povoam ainda a narrativa, todos se relacionando de uma forma ou de outra com a família formada por Crisóstomo, Camilo e Isaura. A solidão, a busca da aceitação, as cicatrizes deixadas pela rejeição são as questões constantes da obra. Uma qualidade atemporal perpassa a narrativa, que se passa em um vilarejo rural humilde, distante do burburinho urbano e  faz ressoar ainda mais a reflexão profunda da obra de Mãe.
Crisóstomo, como personagem, é uma das construções mais belas de O filho de mil homens. Seu principal objetivo é tão tocante e simples quanto complexo – amar e ser amado, aceitar e ser aceitado. Essa singeleza impregna a prosa do autor, que é delicada, sensível e torna a leitura fluída com seu ritmo que é realização impressionantemente eficiente, natural e bela. Mas que não surjam mal-entendidos: para que a beleza de O filho de mil homens funcione, a feiura da nossa sociedade é, também, uma das forças a mover o romance. A rejeição, os preconceitos e a desigualdade são parte dos personagens terrivelmente humanos de Valter Hugo Mãe.
O filho de mil homens é uma obra de sensibilidade ímpar em todos seus níveis. O amor como resposta para as agruras da condição humana – só dificultada pelas tolices inventadas pelos próprios humanos – surge como esperança sincera que torna a obra extremamente tocante e justifica todo e qualquer elogio que Valter Hugo Mãe venha a receber de grandes nomes da literatura. 

Nota: ♥♥♥♥♥

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Mrs Dalloway, Virginia Woolf

Título: Mrs Dalloway
Autor: Virginia Woolf
Tradução: Claudio Alves Marcondes
Editora: Cosac Naify
Edição: 2ª edição, São Paulo, 2013

         Virginia Woolf é uma das mais importantes escritoras do Modernismo e sua obra uma das mais relevantes produções literárias do século XX. Entre romances, uma peça de teatro, diários, contos e ensaios, Mrs Dalloway recebe destaque como uma de suas principais realizações.
            O romance, que conta com uma das frases iniciais mais famosas da Literatura – “Mrs Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores” –, é uma obra densa, que impressiona pela precisão técnica de sua realização. Todo o enredo se passa durante um dia de junho de 1932 em que Mrs Dalloway está oferecendo uma importante festa para a alta sociedade londrina. Clarissa é uma mulher relativamente limitada: não possui habilidades das quais se orgulha, como tocar piano ou mesmo ser uma grande leitora, mas considera-se uma excelente anfitriã. E, como boa anfitriã, é ela que nos guia pela narrativa, permitindo que conheçamos os personagens que gravitam em sua órbita – Peter Walsh, sua paixão da adolescência e um dos personagens mais destacados, obcecado com a juventude e com a própria Clarissa; Sally Seton, uma amiga por quem Clarissa nutria sentimentos de tom romântico e que é lembrada como uma jovem cheia de vida e rebeldia, mas acaba se tornando uma dona de casa; Richard Dalloway, seu prático, sensato, mas também distante marido e Elizabeth, a filha do casal com inclinações políticas instiladas por sua tutora, a rígida e religiosa Miss Killman. Em paralelo também somos apresentados ao veterano da Primeira Guerra Mundial que sofre sequelas psicológicas, Septimus Warren Smith e sua mulher, a jovem e estrangeira Lucrezia.
 Septimus é um dos personagens mais importantes da narrativa, porém em momento algum existe um encontro direto entre ele e Clarissa. O momento em que ela toma consciência de sua existência é, no entanto, um dos mais pungentes da narrativa e nos permite entrever um mundo privado de Mrs Dalloway, que ela tanto se esforça para reprimir, quase se libertando... mas sendo, por fim, aquietado – pelo menos até onde o brusco encerramento permite saber.
Os recursos narrativos são inovações interessantes, trabalhando uma multiplicidade de personagens que ora são examinados com certo afastamento por um narrador onisciente, ora são expostos criticamente e por vezes tem seus pensamentos internos apresentados ao leitor por meio do uso de fluxo de consciência. Essa mudança de estratégia narrativa é feita sem nenhuma indicação ao leitor e exige atenção, mas também se apresenta com espantosa naturalidade. As personagens constantemente refletem umas sobre as outras, permitindo ao leitor uma interessante sensação de que tentativas de estabelecer uma unidade, descrição perfeita são sempre falhas, mas ao mesmo tempo inevitáveis. A sensação de que algo escapa é uma constante.
Também é constante o uso de flashbacks, que formam uma quase segunda narrativa da juventude das personagens, mesmo que extremamente fragmentada por ser exposta episodicamente. Existe uma forte oposição entre o campo e a cidade e Londres surge como uma entidade importante em Mrs Dalloway: é lugar que apresenta infinita possibilidade de encontros e que funciona como uma âncora, um marco da realidade para um livro que coloca em primeiro plano a subjetividade de suas personagens.
O uso brilhante da técnica combinado com a riqueza de temas e leituras possíveis fazem com que Mrs Dalloway seja um livro que exige muito de seu leitor – e, acima de tudo, uma vez que sua pluralidade é tão complexa e profunda, exige de seu leitor um retorno para a obra com a promessa de que uma simples leitura é insuficiente para compreender o intrincado universo construído por Virginia Woolf.

Nota: ♥♥♥♥♥