Mostrando postagens com marcador companhia das letras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador companhia das letras. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de março de 2017

O verão sem homens, Siri Hustvedt

Autor: Siri Hustvedt
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza
Edição: São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

A norte-americana Siri Hustvedt é ficcionista e ensaísta contemporânea e tem encontrado público cativo para seus romances, que são focados na questão da experiência feminina na sociedade como brecha para a reflexão acerca dos relacionamentos humanos e sua complexidade. 
A narradora de O verão sem homens, Mia,  tem plena consciência da banalidade de seu drama. Doutora em filosofia e poeta publicada com modesta, mas respeitável recepção, ela enfrenta o possível fim de seu casamento de trinta anos com Bóris, neurocientista. Após descobrir ter sido traída, Mia surta e é hospitalizada – para sua própria vergonha, uma vez que a marca definidora desta personagem é sua lucidez – e precisa reconstruir a si mesma. 
Para isso, busca o refúgio mais óbvio possível: a proximidade com sua mãe, agora uma viúva que mora sozinha. Abandona Nova Iorque por uma cidadezinha qualquer em Minessota pelo verão, toma para si a missão de ministrar uma oficina de poesia para jovens adolescentes e arranja uma casa próxima da residência em que cresceu.
Siri Hustvedt cria um universo bastante interessante, embora o excesso de novos personagens em tão poucas páginas confunda um pouco o leitor no começo. Mia toma parte do clube de leitoras de sua mãe, onde conhece talvez a personagem mais interessante do livro, a alta e imponente Abigail, que por trás da faixada de professora aposentada de artes revela suas obras secretas: com o uso de vários materias, fazia bordados que escondiam bordados. Se a primeira camada era feita de cenas pacatas, a segunda continha cenas entre o nonsense e o erótico. Essas obras, seus “alumbramentos”, mantiveram-se segredo assim como os pormenores de sua vida sentimental. Sua ligação imediata com Mia, alguém sem tantos preconceitos e também uma apreciadora ávida de arte, é escrita de forma bastante sentimental e deixa clara a mensagem de que há um mundo particular por trás de cada mulher banal vivendo um drama banal. 
Outras relações significativas travadas são com o grupo de jovens estudantes, que logo fazem com que Mia reflita sobre sua própria adolescência, marcada por uma sensação de inadequação. Ao invés de simplesmente empatizar com Alice, a menina ostracizada, Mia reflete de verdade sobre a experiência daquelas meninas sem cair nos clichês. Há também Lola, a vizinha que casou-se cedo e enfrenta a batalha de criar seus dois filhos com um marido irritadiço e logo torna-se sua amiga.
Muita coisa acontece em O verão sem homens e, apesar do enredo principal – o drama entre Mia e Bóris – permancer em sua posição central, mantendo o resto em ordem, há a sensação de que o romance não dá conta de tudo que propõem, explorando mal o universo colorido que apresenta. Incomoda, principalmente, quando questões que são apresentadas como centrais no começo são abandonadas ao longo da narrativa para que o desfecho aconteça.
O romance conta também com alguns poemas e ilustrações de Mia. Os primeiros dialogam diretamente com as situações abordadas enquanto os segundos relacionam-se mais frouxamente com os acontecimentos. O objetivo de fazer deste um caderno de anotações de Mia em seu período de recuperação não é alcançado plenamente, no entanto, e em alguns momentos o leitor esquece-se mesmo deste recurso formal que acaba sendo um detalhe.
A tradução encontra obstáculos em certas expressões idiomáticas rapidamente reconhecidas por quem conhece o idioma original, em parte devido à dicção bastante atual do romance. Apesar disso, a leitura de O verão sem homens é fluída e bem-humorada, com sensibilidade acertada que compensa suas falhas e torna-o um chick lit com mais substância que a média. 

Nota: ♥♥♥

terça-feira, 7 de março de 2017

A montanha mágica, Thomas Mann

Autor: Thomas Mann
Tradutor: Herbet Caro
Revisão da Tradução e Posfácio: Paulo Astor Soethe
Edição: São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Clássico fundamental tanto da literatura alemã como da literatura ocidental como um todo e exemplo perfeito de bildungsroman (romance de formação), A montanha mágica foi publicado em aguardada nova edição pela Companhia das Letras em 2016. O livro recebeu os cuidados merecidos, optando por manter a elogiada tradução do falecido tradutor Herbert Caro, mas recebeu uma revisão para atualizá-la e posfácio novo além, é claro, de novo projeto gráfico. Publicada pela primeira vez em 1924, a obra lança interessante luz sobre a sociedade europeia e seus conflitos ideológicos que culminaram na Primeira Guerra Mundial, ao mesmo tempo que oferece enriquecedor panorama para quem quer entender melhor o que constitui a identidade do continente até hoje. Sua fortuna crítica é extensa e de alta qualidade, inclusive entre teóricos brasileiros, uma vez que há uma curiosa ligação biográfica do autor com nosso país – sua mãe nasceu e viveu seus primeiros anos entre Angra dos Reis e Paraty, antes de ser enviada para Alemanha – a acrescentar ao caráter monumental da obra que extende-se, nesta edição, por 827 páginas e rendem infinitas análises. 
Uma questão, no entanto, parece ser consenso: A montanha mágica lida com a questão do tempo como fonte de desconcertante ambivalência à qual estamos sujeitos pela condição humana. 
Hans Castorp, nosso protagonista, é jovem engenheiro de origem nobre e modos burgueses. Orfão de pais, conhece a morte desde muito cedo e é criado pela família estendida, cuja figura do tio-avô desperta o tipo de respeito que somos incentivados a sentir pelas figuras patriarcais austéras. Castorp, como a própria narrativa coloca, é um sujeito comum, talvez até medíocre. Resolve visitar seu primo, Joachim, no sanatório para tuberculosos e aproveitar pare revigorar-se de uma persistente anemia. Seu plano inicial é passar apenas três semanas e partir para sua primeira experiência de campo como engenheiro naval, mas eles caem por terra quando a pequena anemia que pretendia tratar concomitantemente à visita ao primo evolui para um quadro pior – embora nunca diagnosticado efetivamente. 
O tempo no sanatório de Berghorf corre de forma diferente. Uma rotina rígida é respeitada pelos pacientes, que são alimentados com fartas refeições, fazem caminhadas diárias, registram a própria temperatura periodicamente e repousam ao céu aberto. Não há nada a fazer a não ser ocupar-se da própria saúde obsessivamente. A sociedade de Berghorf, por seu isolamento físico, acaba distanciando-se dos problemas da planície e de suas regras, além de ser constituída por elementos de diversos lugares. Berghorf é microcosmo da Europa, representada pelas mesas da sala de jantar: ingleses, alemães, os russos nobres e os russos ordinários e a peculiar figura de Ludovico Settembrini, intelectual italiano humanista que toma para si a função pedagógica de censurar os devaneios de Hans Castorp. Também ocorrem palestras para os enfermos e várias delas ocupam-se do perigo que o estímulo amoroso representa para quem sofre da tuberculose. 
Se Settembrini sutilmente vai moldando o modo de pensar do nosso herói que não é herói, é a presença de Clawdia Chauchaut, cuja presença desperta nele memórias de um colega de escola por quem Castorp nutriu sua primeira paixão (um interessante momento homoerótico na narrativa que salta aos olhos do leitor moderno). Ele nutre uma paixão por Clawdia mesmo ciente da diferença de classe entre eles e que acaba arrastando-o ainda mais para dentro do universo das relações do sanatório, esse mundo estranhamente autossuficiente dos enfermos.
O universo de Berghorf está longe de ser um lugar de recato, apesar de assim se apresentar ao olho mal-treinado dos visitantes graças aos esforços dos funcionários. Na verdade, os que ali residem mantém intensa sociedade entre si, estabelecendo amizades e laços amorosos que ignoram as dinâmicas da planície. A morte, que deveria rondar essas personagens, é tratada como assunto proibido: o médico incentiva seus pacientes a morrer sem escândalos, discretamente são removidos os corpos e logo os quartos são desinfetados para receber o próximo paciente – e sangue novo é sempre motivo de agitação para os pacientes confinados. A atividade profissional de Castorp é deixada de lado assim como o livro que ele traz sobre o assunto, e lá  ele aprende a dedicar-se ao que chama de “reinar”: longas reflexões filosóficas em que começa a ponderar mais profundamente a existência. O personagem de Settembrini é crucial nesse novo hábito e exerce sua influência ao mesmo tempo em que revela na mesma intensidade a beleza e também as limitações do pensamento humanista europeu.
  Thomas Mann explora brilhantemente as contradições entre o desejo pela democracia e o impulso imperialista bélico e o desdém por culturas diferentes que ainda se fazem muito presentes no velho continente, que fermentaram e fermentam ainda hoje os principais conflitos na região. Mais tarde, somos apresentados também a outra figura intelectual contraditória, o conservador Naphta. Ele abandona suas raízes judaicas para frequentar o seminário e tornar-se jesuíta; a perseguição ao povo judeu torna-o órfão de maneira brutal e influenciam bastante sua personalidade. Figura pessimista, Naphta entende o mundo pela via teológica que lhe permitiu superar a miséria e faz pouco da ciência, que entende como apenas mais uma crença. Suas opiniões são cínicas e sua figura desagradável, mas é por meio dele que vemos alguns dos diagnósticos mais acertados dos longos debates que A montanha mágica traz. Também pretende extender sua influência pedagógica sobre Hans Castorp em um conflito que, representando as forças opostas que tomam a Europa, recebe um desfecho trágico.
  A prosa de Thomas Mann é densa e seu feito mais impressionante está em, de fato, manipular a sensação da passagem do tempo. Assim como o primeiro dia no sanatório transcorre de forma mais impactante para Castorp, toma mais páginas do livro. A prosa acelera e é pontuada por diálogos curtos quando o protagonista encontra-se com a Sra Chauchaut, em especial no único encontro romântico entre os dois que brilhantemente acontece em ritmo totalmente diferente. Apesar disso, Mann domina a ironia e arranca mesmo sorrisos de seus leitores ao demonstrar o que há de patético no grupo alienado que povoa a Montanha e em quanto se levam a sério. O narrador é onisciente, usa ocasionalmente a primeira pessoa do plural e dedica-se abertamente à Hans Castorp, julgando-o duramente e com isso, estranhamente, tornando-o mais simpático ao leitor.
  A eventual e inevitável descida à planície mal é sentida para quem lê, assim como para o personagem acontece em um estado de transe. A montanha mágica evoca a ideia de que tempo e espaço são indivisíveis em seu favor: neste lugar, os personagens não precisam cumprir seus papéis sociais e até mesmo as normas de comportamento são afrouxadas. Lá, podemos acompanhar as reinações de Castorp, mas também a apatia que a intensa atividade intelectual como fim em si mesma (ao contrário de Settembrini, por exemplo, que possui um ideal pelo qual luta dentro de seus meios) desperta na juventude. Essa juventude egoísta, doente e pouco interessada na vida prática subitamente é lançada, em estado de torpor, no campo de batalha. O simples contraste evoca a crueldade da Guerra mais efetivamente do que a descrição minuciosa de seus horrores poderia conseguir. 
A subida para a montanha mágica é íngreme. O próprio autor recomendava aos excursionistas pelo menos duas leituras para que se consiga dar conta do denso conteúdo. A primeira viagem, por mais desafiadora que seja, já consegue ser recompensadora ao seu modo e o desfecho dessa obra - que pode espantar o leitor por sua erudição - demonstra claramente que seu autor domina o gênero de maneira fascinante para quem quer entender melhor o romance e, por consequência, uma vez que o gênero está profundamente ligado com o nacionalismo e o estado burguês  europeu, o espírito do continente como um todo.  

Nota: ♥♥♥♥♥


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Dois Irmãos, Milton Hatoum

Dois Irmãos, Milton Hatoum
Título: Dois Irmãos
Autor: Milton Hatoum
Edição: Companhia das Letras, 2007.


Milton Hatoum é autor brasileiro contemporâneo de impressionante carreira. Manaura de família de origem libanesa, seus romances  Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte todos foram premiados com o Jabuti de melhor romance. O potencial de Dois Irmãos em outras mídias, que é seu romance mais popular,  têm sido bastante explorado recentemente. Em 2015, a obra foi adaptada em HQ por dois dos principais nomes brasileiros na área, Fábio Moon e Gabriel Bá, e em 2017 ganhou adaptação no formato minisérie para a rede Globo de televisão.
O enredo acompanha a vida dos gêmeos Omar e Yaqub. De família síria, os meninos crescem adorados pela mãe e irmã mais velha e ressentidos pelo pai, que nunca desejou intrusos no seu intenso idílio amoroso com a esposa.  Nosso narrador mantém sua própria identidade em suspensa no ar a maior parte do romance – através das narrativas familiares que reorganiza para o leitor define, também, a si mesmo.  
A ideia de irmãos gêmeos possui um forte poder evocativo no imaginário coletivo ocidental por estar associada a outra ideia, muitas vezes fonte de horror, também explorada pela Literatura: o duplo. Inúmeras narrativas apoiam-se na imagem de personagens cujo destino está inevitavelmente ligado ao outro. Esse "outro" pode ser tanto complementar quanto o seu reverso, mas raramente é fonte de uma relação saudável. A sentença de um duplo “para vida”, que é a condição a qual os gêmeos são relegados por laços sanguíneos, reforça o ar trágico do qual Hatoum faz proveito ao narrar o fim da linhagem produzida por Zana e Halim.
Omar e Yaqub serem duas faces da mesma moeda não significa, no entanto, que um é bom e outro mau. Está nessa compreensão uma das chaves do romance, que explicam também o plano metafórico que Hatoum constrói. Ambos possuem falhas e elas são reflexos umas das outras. Em suas tentativas de diferenciar-se, tornam-se um completo.
    O romance começa com Yaqub retornando da Síria após uma longa temporada em uma pequena aldeia, sem linguagem adequada para expressar-se nem conhecimento das regras de etiqueta. Omar reina absoluto na casa e nas afeições da mãe. Instala-se o conflito: as diferentes formas como os irmãos encaram o fracasso e a rejeição, a impossibilidade de entendimento entre ambos, cujos temperamentos parecem fazer tudo possível para negar as semelhanças físicas. E assim segue o romance inteiro: a vitória de um, intencional ou não, implica na derrota do outro. 
Yaqub parte para São Paulo, onde encontra sucesso nos estudos universitários e, mais tarde, em uma carreira de engenheiro. Omar entrega-se à boêmia manauara, mergulhando cada vez mais fundo na vida noturna e nos lugares remotos da cidade. A tensão entre ambos é, também, uma materialização da tensão entre o Norte e o Sul do país: ambos são igualmente dados aos seus impulsos egoístas, apenas os exploram de maneiras diferentes – enquanto Yaqub lhes dá um verniz de sofisticação, Omar deleita-se com o que há de primitivo neles. Ainda neste panorama, temos a personagem Domingas. De origem pobre, fica órfã e é levada para o cuidado das freiras e, mais tarde, da família dos meninos que, apesar de não serem muito mais velhos que ela, exerce um ambíguo papel maternal em suas vidas. Representa outra faceta do Brasil: a que é explorada e relegada ao “quartinho dos fundos”, parte da família somente quando interessa aos que possuem maior poder.
Outro aspecto interessante explorado pelo autor é o núcleo familiar extremamente fechado, a ponto das relações serem todas contaminadas. A expressão máxima disso é, aqui, as inúmeras menções e mesmo a ocorrência direta de incesto. A obsessão de Zana pelos filhos, em especial Omar, e Rânia pelos irmãos é motivo até de alguns comentários, além da clara desconfiança do narrador – e aqui precisamos nos indagar se sua condição dentro do núcleo familiar não o faz particularmente malicioso na interpretação desses afetos. Halim claramente sente ciúmes de Zana. Essa obsessão leva os personagens a fechar-se e, eventualmente, acaba com sua linhagem.  
Se o clima novelesco ameaça o romance de Hatoum com as ações dramáticas que recheiam seu romance, a maneira com que o autor captura o uso da língua dá autenticidade ao seu romance, fazendo dele, ao mesmo tempo, uma saga familiar com contornos épicos e um relato desses que é passado de boca a boca. O uso do narrador em primeira pessoa, dá folêgo para o romance nos momentos em que há afrouxamento da tensão entre as personagens – sua condição na família e no romance é a mesma: fonte de uma tensão subjacente, por vezes esquecida.
   Dois irmãos consegue, portanto, agradar tanto o leitor mais casual quanto o mais exigente e é um romance interessante de nossa contemporaneidade. A prosa de Hatoum é fluída e sem floreios, mas também é dosada para que o leitor possa entrever possibilidades no que não é dito ou no que somente é insinuado de maneira rica. Suas críticas podem parecer sutis – o autor só abandona qualquer pretexto de sutileza quando trata do período da ditadura militar -  mas conseguem ser contundentes sem cair em um tom professoral. Hatoum consegue a difícil tarefa de produzir um romance denso sem ser hermético.

Nota:♥♥♥♥♥

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Esta valsa é minha, Zelda Fitzgerald

Título:Esta valsa é minha
Autor: Zelda Fitzgerald
Tradução: Rosaura Eichenberg
Edição: São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

Esta valsa é minha, de Zelda Fitzgerald, é um romance muitas vezes delegado à posição de complemento da obra prima do marido de sua autora, o romance Suave é a noite, de F.Scott Fitzgerald,. Essa relação ecoa também a de Zelda na História da Literatura: foi um dos ícones de sua época junto ao seu marido. Eram dois jovens belos e excêntricos, cuja imagem de excessos inebriantes escondia uma condição financeira instável. Juntos, incorporavam o espírito americano das tumultuosas décadas de 20 e 30. A situação de Esta valsa é minha torna-se ainda mais complicada ao sabermos de seu caráter autobiográfico. Escrito pela autora durante uma de suas internações – sofreu de esquizofrenia – e editado e publicado posteriormente com a ajuda de seu marido, é impossível falar de Zelda seriamente sem dar certo peso às acusações completamente plausíveis de que Scott aproveitava-se de trechos inteiros escritos pela esposa. Se, para o leitor de ambos, parece inegável que há algo compartilhado no estilo dos dois, os protestos conhecidos da autora a respeito do silenciamento que sofria não parecem tão absurdos assim, embora sejam muitas vezes descreditados em favor de seu marido.
Por conta do drama real que envolve o único romance da autora, a obra é constantemente analisada com base nessas hipóteses e tem seu valor questionado e sua estrutura considerada obra do mero acaso. Zelda é definitivamente mais experimental que seu marido, seja lá qual for a motivação para isso, o que torna Esta valsa é minha  um romance difícil de adentrar. O ritmo desenfreado com que acompanhamos as memórias de infância de Alabama, personagem central, pula de recordação para recordação tão rápido que desnorteia o leitor. Não se trata, no entanto, de um fluxo de consciência, uma vez que a narrativa acontece predominantemente em terceira pessoa. P trabalho narrativo apresenta rupturas em alguns momentos desconcertantes, seja por uma mudança no foco, que abandona Alabama para descrever os pensamentos de outras personagens muito ocasionalmente, seja pelo uso inesperado de um “nós” que culmina em um interessante diálogo. Hasting, antipático amigo escritor do marido de Alabama, diz ser da opinião de que que não adianta elaborar as relações humanas, ao que Alabama indaga tanto a ele quanto ao leitor: “diga-me, quem é este nós hipotético?”, logo após presentearmos com alguns parágrafos em que a terceira pessoa do plural é usada.
O fio condutor dessa narrativa é o processo de desligamento de Alabama de quem foi um dia e sua total absorção no papel de esposa de David Knights, famoso e consagrado pintor. Das memórias confusas da infância, a corte e o casamento, a mudança para Nova Iorque e, depois para a Europa e, finalmente, sua tentativa de firmar-se como bailarina, o ritmo da narrativa acompanha a vida da narradora. É quando resolve dedicar-se totalmente ao balé, empreitada fadada ao fracasso devido a sua idade avançada para uma principiante, que vemos uma ordenação mais clara dos eventos. Ora, a vida também torna-se mais clara para Alabama, que pela primeira vez impõe-se uma rotina dura, ignorando tudo que seja alheio ao seu objetivo.
   Parece leviano, para o leitor mais atento, deixar-se levar pelos julgamentos de caráter de Zelda e ignorar a possibilidade de uma intencionalidade nessa progressão interessante presente em seu romance. 
Começamos com uma prosa extremamente desordenada e uma personagem jovem e impulsiva, terminamos com uma narrativa convencional na medida em que Alabama também se vê obrigada a ceder a uma vida convencional. Seu sonho de ser bailarina, uma última tentativa de ser relevante por si só, e seu pai morrem. Alabama volta para o seio familiar, parecendo conformada com sua posição como Mrs Knight.
Não só são modernas suas escolhas artísticas, é também assim seu olhar sobre as relações humanas. Há muitos silêncios no romance: não há cenas de sexo explícitas ou grandes cenas de amor. Intencionais ou não – o livro foi revisado e editado por F. Scott Fitzgerald – essas ausências fazem com que tenhamos acesso a tudo, mas o cerne do romance mantenha-se misterioso: não sabemos ao certo quem é Alabama pois ela também não o sabe. Ao invés de digressões somos presenteados com descrições que nem sempre esclarecem adequadamente as situações.
Isso, porém, prejudica um pouco o livro, dando-lhe um ar de incompleto que realmente prejudica uma obra que apresenta grande potencial no que experimenta. Ao leitor, então, cabe dar o peso adequado ao que acontece, uma vez que o romance lida com os namoricos de Alabama e sua quase amputação do pé da mesma maneira crua e objetiva.
Esta valsa é minha é um romance interessante em suas escolhas, pitoresco em seu retrato da cultura americana e do meio artístico e valoroso em sua honestidade. Independentemente de seu valor terapêutico para a autora ou de tomar para si os mesmos fatos autobiográficos que receberam tratamento tão diferente na obra de F.Scott Fitzgerald, é uma obra de valor independente das relações que possam ser estabelecidas a partir de si.

Nota: ♥♥♥

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O coração é um caçador solitário, Carson McCullers

Título original: The heart is a lonely hunter
Tradução: Sonia Moreira
Edição: Companhia das Letras, 2007.

            O coração é um caçador solitário é o romance de estreia da autora norte-americana Carson McCullers, publicado pela primeira vez em 1940. O livro foi sucesso de público, colocando sua autora na lista de mais vendidos.
            O cenário do romance é em uma cidade do sul dos Estados Unidos no final da década de 30. Os capítulos alternam o foco narrativo de um personagem para o outro, como inicial apresentando-nos à amizade entre os únicos mudos da cidade – o grego Antanapoulos e o judeu Singer. A rotina calma dos dois deixa de existir quando Antanapoulos começa a apresentar comportamento violento, desencadeando a decisão de sua família de interná-lo. Singer vai morar em um quarto de um pensionato e, aos poucos, novas figuras começam a surgir em sua vida.
            Biff Brannon é dono de um restaurante em que trabalha com sua mulher, Alice. Tem como hábito acompanhar avidamente as notícias e arquivar jornais. Mick é filha dos donos do pensionato e obcecada com música. Seu maior desejo é poder aprender a tocar um instrumento, mas as condições de sua família fazem desse um sonho impossível. Jake Blount, de passagem na cidade, é um trabalhador que sonha com uma revolução comunista. Benedict Copeland é o médico da cidade, que trabalha exaustivamente e vê em seus filhos o fracasso do sonho de superar pelo estudo o terrível fardo da escravidão que carregam os negros americanos. Singer é o ponto fixo em torno do qual esses personagens orbitam, ocasionalmente vislumbrando uns aos outros e, dois momentos pivotais do livro, encontrando-se todos.
            A amizade de Singer com essas pessoas é fudamentada, principalmente, no desejo delas por comunicação. Sua mudez o faz quase um ser místico para os personagens que enxergam no seu silêncio a compreensão de suas angústias mais internas, que hesitam em verbalizar com alguém que possa de fato respondê-los. Singer, no entanto, sente-se solitário sem Antanapoulos - seus sentimentos por ele são próximos aos de ordem romântica, mas em nenhum momento é explicitado se é essa a natureza do relacionamento dos dois – e enxerga nessas pessoas a representação da ausência da compreensão que acreditava encontrar em seu amigo mudo.
            A impossibilidade da comunicação real e suas consequências é o fio condutor da narrativa e também o guia os personagens aos seus desfechos: os planos arruinados de Mick, o fracasso do sonho de Dr. Copeland, a desistência e partida de Jake e a solidão cada vez mais intensa de Biff. A prosa de McCullers é fluída e objetiva, mudando levemente seu tom para dar conta melhor do personagem que recebe o foco narrativo em cada capítulo. São particularmente pungentes os capítulos dedicados ao Dr. Copeland e à Mick. Apesar da vida miserável e árida das suas personagens, a autora acerta ao conferir às vidas interiores deles – Mick, inclusive, explicita essa divisão ao referir-se à sua obsessão com música e com Singer como “o mundo de dentro” – é complexa e rica e a negociação entre a realidade e a interioridade surge como um processo dolorido reservado a todos os personagens.
            Publicado quando a autora tinha apenas 23 anos, O coração é um caçador solitário explora a miséria humana enquanto consciente das diferentes forças sociais que a causam, criando uma vívida imagem e personagens tocantes e complexas. 

Nota: 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Nu, de botas, Antonio Prata

Título: Nu, de botas
Autor: Antonio Prata
Edição: Companhia das Letras, São Paulo: 2013. 1ª edição.

            Antonio Prata é escritor paulista. Versátil, trabalha com roteiros para cinema e televisão além de uma coluna na Folha de São Paulo. Já publicou uma coletânea de crônicas chamada Meio intelectual, meio de esquerda cujo título é o mesmo de um de seus textos mais. Em Nu, de botas, Prata apresenta reminiscências de sua infância na São Paulo dos anos 80 de forma bem humorada.
            Com mais jeito de livro de memórias do que qualquer outra coisa, a obra é catalogada como uma coleção de crônicas e, embora todos os textos funcionem individualmente, a leitura completa obedecendo a ordem apresentada na edição é definitivamente a mais proveitosa. Alguns personagens e episódios são recorrências discretas, tornando-se espécie de running gags - piadas cujo efeito cômico torna-se cumulativo com sua repetição constante, mais comuns à linguagem cinematográfica e da televisão do que à literária.
            As crônicas são leves, engraçadas, abordadas com o intuito de  explorar o ponto de vista do Antonio criança (ficcionalizado, é claro). Tratam de pequenos eventos marcantes – as brincadeiras das crianças do bairro, o divórcio dos pais, a alfabetização, os animais de estimação, a chegada da irmã – conseguindo um equilíbrio impressionante entre a consciência do exagero infantil e o entendimento que ele é fruto do estranhamento do mundo que a infância proporciona.
            Merecem destaque “Ca ce ci co çu”, brilhante reflexão linguística sobre o poder subversivo de algumas palavras na visão infantil que cria uma divertida quebra de expectativa para o protagonista e “Banhos”, um hilário episódio de descoberta assombrosa sobre a sexualidade.
            Antonio Prata consegue segurar o tom leve de sua obra e raramente derrapa para um humor mais crasso – mesmo navegando no universo infantil onde o humor escatológico, por exemplo, é tão recorrente. O ponto baixo é, sem dúvidas, “Patos”, que tenta trazer humor para um momento que revela um pouco mais do que a simples ignorância infantil que seu autor coloca em primeiro plano.
            Apesar disso, é inegável a competência de Antonio Prata e suas reminiscências sobre a infância são particularmente agradáveis para aqueles que viveram os anos 80.

Nota:

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Book Haul - Junho '14


     Junho é meu mês favorito do ano e esse ano foi o mês mais descontrolado no quesito aquisição de livros também. Quando parei para contabilizar o estrago decidi ficar pelo menos um mês sem comprar nada e estou quase alcançando a meta (só vou abrir uma pequena exceção pro livro novo do Milan Kundera, mas é só, JURO). E vários dos livros foram presentes porque junho é o mês do meu aniversário :)




 




     Bom, decidi não falar de livro por livro porque acho que ninguém teria paciência, né? Vários são das promoções que a Companhia das Letras e a Editora 34 fizeram esse mês e alguns outros são aproveitando o desconto para aniversariante da Cosac Naify. E uma boa quantidade também são livros que ganhei de presente :) Como vocês podem ver, junho foi um mês excelente para minha estante.

     É isso, pessoal, até mais e boas leituras!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A mulher calada: Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia, Janet Malcolm

Título: A mulher calada: Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia
Autora: Janet Malcolm
Tradutor: Sérgio Flaksman
Edição: São Paulo: Companha das Letras - Companhia de Bolso, 2012.

       Sylvia Plath foi uma autora americana de poesia e prosa famosa por seu estilo intimista, atmosférico e  por seu lirismo rico. O tom confessional e os detalhes autobiográficos que Plath inseria em sua obra tornaram-na, postumamente, objeto de intenso escrutínio. Detalhes de sua vida com seu marido, o poeta laureado Ted Hughes, e sua batalha desde a infância com a depressão fomentaram o mito de sua morte - um suicídio explorado em detalhes não só pela mídia, mas também dentro do meio acadêmico. A publicação de seus diários e as omissões feitas por Hughes, que além de editá-los, não escondeu ter destruído alguns dos cadernos mantidos por sua esposa só alimentaram a curiosidade pública sobre Plath.
            Janet Malcolm propõe com seu livro um estudo focado não em Sylvia Plath, mas sim nas narrativas que a envolvem e sua jornada tentando decrifrá-las. Para tanto precisa da aprovação dos Hughes. Ted e sua irmã, Olwyn, angariaram ao lidar com estudiosos que desejavam revisitar os espólios literários de Plath uma péssima reputação. Malcolm é compreensiva e busca estabelecer uma visão neutra, refletida em sua escrita que evita trazer suas próprias impressões. Apesar disso, é recebida com desconfiança.
 Ao mesmo tempo, a questão da biografia enquanto gênero e suas limitações – afinal, tudo que Janet Malcolm pode nos trazer em sua tentativa de imparcialidade ainda é marcado por suas impressões pessoais – surge como uma das principais discussões propostas pelo livro. Sylvia Plath é, de fato, exemplo perfeito da impossibilidade de impedir que animosidades despertadas por sua figura influenciem os inescapáveis julgamentos dos quais o biógrafo não pode escapar.
A autora tem consciência disso, o que a leva a admitir simpatizar com Ted Hughes, mesmo consciente de que o poeta mostra-se na mesma medida esquivo quando possível e solícito quando vantajoso, uma combinação frustrante tanto para o leitor quanto para a Malcolm.
A pesquisa de Janet Malcolm é sólida e nos apresenta seus encontros com as principais figuras da vida de Plath de forma interessante. Mesmo em seus esforços para compreender os Hughes, a autora não consegue disfarçar que encontra em seu caminho diversas forças antagônicas, a começar por Olwyn. Diante de tanta oposição, não parece estranho que a resposta de alguns estudiosos seja a adoração exagerada de Plath.
A questão do gênio poético de Plath é, talvez, o ponto mais interessante da biografia. Sua obra poética é  complexa e rica o suficiente para clamar independência da figura de sua autora. Porém, parece  frustrantemente impossível para os leitores,  acadêmicos e mesmo para Hughes enquanto poeta e editor escaparem dessa armadilha. A academia muito discutiu o silenciamento da voz poética de Plath que fez parte das tentativas de Ted de manter sua vida privada longe do alcance de estudiosos. Janet Malcolm racionaliza os motivos por trás disso e deixa para seu leitor decidir se preservar os vivos, em especial os dois filhos do casal, é um motivo razoável para justificar as escolhas, por vezes inconsistentes, dos Hughes.
Não há duvidas de que questões interessantes são levantadas e episódios relevantes descritos com tato, porém o livro atenta mais aos irmãos Hughes e sua relação com os biógrafos de Plath do que para a própria poeta.  O desprezo dos Hughes pelas leitoras de Plath faz com que o leitor já intua certa necessidade de equilíbrio que acaba faltando na obra. O retrato que os Hughes desejam pintar fica claro: uma mulher geniosa, atormentada por seus problemas mentais que tornavam difícil a convivência. Ao leitor, cabe pensar e decidir por si so: será que buscar Ted, por mais que seja possível compreender sua posição, é mesmo o melhor caminho para entender sua esposa? O mesmo Hughes que parece incapaz de entender e diferenciar a voz poética de sua esposa, rejeitando-a? Será que o ressentimento pelos poemas de Plath que sobrevivem com mais força terem sido produzidos durante o período em que Ted abandonou sua família o permite enxergar a questão com clareza?
Janet Malcolm pouco investiga  sobre a vida de Sylvia antes do casamento e da mudança para a Inglaterra e peca por não lhe dar mais autonomia em sua própria narrativa. Plath é a capa do livro, mas o recheio é a questão – brilhantemente abordada – da escrita de não-ficção e seus limites.
            
Nota: ♥♥♥

O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald

Título: O Grande Gatsby
Autor: F. Scott Fitzgerald
Tradutor: Vanessa Barbara
Edição: São Paulo: Penguin Classics - Companhia das Letras, 2011.

       Hemingway, de quem F. Scott Fitzgerald era amigo pessoal, popularizou o termo “geração perdida” criado por Gertrude Stein para descrever os jovens adultos que alcançaram a maioridade durante a Primeira Guerra Mundial e viveram os roaring twenties (em tradução livre, vigorosos anos 20). Esta geração foi definida, principalmente, pelo desejo de romper com as tradições. Em seu romance mais famoso, O Grande Gatsby, Fitzgerald debruça-se sobre uma das ideias que inspiravam, atormentavam e fascinavam sua geração: o sonho americano.
            O Grande Gatsby é um romance narrado por Nick Carraway, jovem veterano da guerra que acaba de se mudar para uma nova vizinhança em Nova Iorque graças à uma oportunidade de trabalho. Assim que se estabelece, Nick retoma contato com sua prima, Daisy, e o marido dela, Tom Buchanan. Nessas visitas conhece também Jordan Baker, proeminente tenista com quem começa um relacionamento.
            Nick logo descobre que a área em que estabeleceu residência é bem conhecida na cidade graças às festas que seu vizinho, Jay Gatsby, dá. Dono de uma impressionante mansão, Gatsby periodicamente organiza celebrações impressionantes em seu requinte e ostentação, apesar de não ser um participante entusiástico delas. Observa-as de fora, o que só alimenta ainda mais a curiosidade a respeito de sua figura misteriosa. Nick  recebe um convite para uma das festas e lá reencontra Jordan e descobre que seu vizinho e Daisy foram apaixonados no passado.
            São expostos, então, os relacionamentos entre as personagens. Gatsby aproxima-se de Nick e consegue finalmente uma entrada para o círculo social de Daisy. Apesar de possuir dinheiro, Gatsby mantem-se um forasteiro ao universo do qual deseja fazer parte. Conforme estabelece com Nick uma relação de amizade, é revelado como Gatsby conseguiu ascender socialmente e porque, afinal, preocupa-se tanto com suas festas. Seu longo diálogo é marcado pelo jeito caricato de falar e sua história de vida e sonhos contrastam com a superficialidade afetada dos outros personagens.
            O Grande Gatsby é comentário ácido sobre relações de classes. Aos personagens de berço de ouro resta uma covardia imensa de sair do conforto, mesmo quando esse conforto não traz felicidade concreta. A filha de Daisy e Tom, praticamente ignorada pelos pais, traz a promessa de que a alienação que permite que essas pessoas mantenham-se onde estão deverá continuar a existir. Por outro lado, Gatsby mostra que não há redenção para quem luta pela ascensão social a qualquer custo, pois o dinheiro traz também a corrupção do espírito jovem que acaba tornando-se inescrupuloso.
Se o personagem de Nick é estranhamente otimista para alguém que viu a Guerra – mas talvez assim tenham sido os jovens de classe média de sua geração – quando percebe a dura realidade social por meio do relacionamento com seus amigos, e em especial com Gatsby, começa a ter uma visão mais pessimista do mundo. O sucesso deixa de parecer uma equação simples em que esforço e inteligência resultam em felicidade.
A prosa de Fitzgerald é bem calculada e sabe ser pomposa na medida em que sua narrativa de aparência versus realidade pede, evitando exageros despropositados e encontrando um de seus maiores trunfos na construção de vozes convincentes para seus diferentes personagens. O enredo intercala momentos mais calmos e reflexivos com momentos de ação intensa, mantendo um ritmo que prende o leitor e, junto com o tema principal, explicam facilmente a longevidade do romance.
            
Nota: ♥♥♥♥